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Divinas divas: visíveis e invisíveis - Etelma T. de Souza



O texto abaixo foi escrito e publicado originalmente em outubro de 2017. Hoje, faço pequena adaptação para resgatá-lo em minhas redes.

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 Há cerca de 3 anos passei a ter interesse em desenvolver algum trabalho com a população T – travestis e transexuais.

De onde veio esse interesse?

Em junho de 2017 assisti à pré-estreia do filme Divinas Divas, que foi seguido por bate papo com a diretora, Leandra Leal, e com as atrizes Rogéria, Jane di Castro, Eloína dos Leopardos, Divina Valéria e Camille K.

O filme é ótimo! Traz elementos que ignoramos sobre a trajetória delas, os sofrimentos por que passaram, as dificuldades na sociedade e com a família.

As Divinas Divas conseguiram se estabelecer, se impor, mas, também tiveram que enfrentar preconceitos, violências diversas.

Sobressaíram-se, tornaram-se artistas e isso foi um dos motivos que colaboraram para a sobrevivência de cada uma delas.

Hoje, ainda temos muito preconceito e violência contra essa população, mas, imaginem na época dessas pioneiras!...

Elas são a primeira geração de travestis brasileiras, estão com idade por volta dos 70 anos e mais.

Imaginem o que não passaram há cerca de 50 anos!?...

São pioneiras em muitas coisas.

São bravas guerreiras!

Mas, sobretudo, sobreviventes!

Foram submetidas a diversos procedimentos experimentais para mudanças no corpo. Muitas morreram em decorrência disso e das violências de que eram e ainda são vítimas!

Foram internadas em hospitais psiquiátricos por suas famílias, simplesmente porque não aceitavam terem filhas travestis!

Porque a sociedade não aceitava!

Durante o bate papo após a exibição do filme, tivemos informações sobre dados de realidade até então desconhecidos por mim.

Muitas travestis e mulheres trans acabam na prostituição por falta de alternativas. Não conseguem trabalho devido a preconceitos. Elas são excluídas do mercado de trabalho, assim como são excluídas de diversos espaços nessa nossa tão hipócrita sociedade brasileira!

Foi ali que soube que a expectativa de vida de travestis e transexuais é, em média, 35 anos! Apenas 35 anos de idade!!!

Fiquei tão chocada que fui pesquisar os países com piores índices de expectativa de vida.

Descobri que esses 35 anos representam índice muito menor do que o encontrado em 7 países com menor expectativa de vida (Afeganistão - 47 anos; Zâmbia, Guiné-Bissau, Zimbábue, Serra Leoa e Lesoto, 46 anos e República Centro-Africana, 45 anos (Fonte: https://fatosdesconhecidos.ig.com.br/7-paises-com-as-menores-expectativas-de-vida-do-mundo/).

Travestis e mulheres trans são vítimas de violências diversas que começam com o preconceito, a não aceitação do diferente.

Os crimes contra a população trans têm múltiplas causas, dentre as quais a transfobia parece ser a principal, ou uma das principais. Mas, também há que se apontar a falha do Estado em prevenir e investigar crimes contra essa população. As falhas do Estado em implementar políticas públicas para travestis e transexuais, o que as empurram ainda mais para diversas exclusões.

Com isso tudo, além de poder curtir um belo filme e ótimo debate, ainda aprendi um pouco sobre essa população.

Daí veio o interesse em querer saber mais e poder me dedicar a algum trabalho voltado para travestis e transexuais.

Comecei a pesquisar, ler, estudar e estabelecer contato com travestis e mulheres trans.

Nessas pesquisas, encontrei a página no facebook: Travestis e Transexuais Brasileiras - muito interessante - e aprendi mais um pouco.

Também conheci, e até hoje é uma de minhas principais fontes, a página da ANTRA - Associação Nacional de Travestis e Transexuais (https://antrabrasil.org/).

Nessa mesma época, 2017, devido à onda de conservadorismo e censura no Brasil, soube da peça “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”, estrelada por Renata Carvalho, atriz trans. Isso porque a atriz foi vítima de diversas violências, simplesmente por ser uma travesti fazendo papel de Jesus!

Também cheguei à página da atriz, que foi muito atenciosa e passamos a dialogar pelo facebook!

Só o que Renata enfrentou para conseguir realizar suas apresentações Brasil afora já é digno de admiração!

Tive mais aprendizado vendo a peça e participando de debate inter-religioso após a mesma, o que originou outro texto meu: "Quantos rostos de Jesus são possíveis?".

Depois participei de um bate papo com música em que Renata Carvalho disse a seguinte frase: “hoje estou comemorando que faz uma semana que não recebo ameaça de morte”!...

Soube da existência da Casa Florescer, que acolhe travestis e mulheres transexuais e da Casa 1, centro de acolhida de pessoas LGBT expulsas de casa pela família e centro cultural, espaços que quero conhecer pessoalmente tão logo seja possível.

Enfim, aprendi um pouco e espero aprender sempre mais e, sobretudo, passei a me dedicar a mais essa causa: defesa dos direitos das travestis e mulheres trans.

Hoje, nas artes, para mim, temos nova geração de Divinas Divas: Liniker, Assucena Assucena, Raquel Virgínia, Renata Carvalho, Linn da Quebrada, dentre outras.

Na política, temos 3 mulheres trans eleitas: Erica Malunguinho, Erika Hilton e Robeyoncé Lima. Ainda na política, temos Duda Salabert, que foi a primeira trans a se candidatar à senadora.

Essas mulheres estão se consolidando e conquistando cada vez mais espaços.

Também são bravas guerreiras! Enfrentaram, e acredito que ainda enfrentem, diversos obstáculos para conseguirem se impor! Porém, estão aí, vieram para ficar!

Estão aí! Muitas são precursoras e ajudaram e ajudarão a abrir espaço para outras mulheres se consolidarem e conquistarem seus direitos.

Mas, e as Divinas Divas invisíveis?...

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Para finalizar, indico a todos, mas, principalmente aos PRECONCEITUOSOS, que assistam Divinas Divas e Dores de Amor.

Sugiro também procurar saber um pouco mais da realidade e das violências que vitimam travestis e transexuais.

E, se mesmo assim, não conseguirem vencer o preconceito e continuarem disseminando transfobia na internet, então só posso deduzir que têm uma pedra no lugar do coração!...

 

 


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